essa lua e esse conhaque
Um resumo de dezembro e um desejo pra 2026
Em dezembro, passei quatro dias sem energia elétrica em casa. A cada hora que passava, a concessionária informava - de forma totalmente incorreta - que o retorno do fornecimento aconteceria dali a uma hora. Todos os quatro dias passei nesse tormento de não ter ideia nenhuma se passaria mais 2 horas ou 7 dias sem luz. Em algum momento, fiz uma mala de roupa, e saí, deixando tudo para trás, em busca de um banho quente e um lugar para carregar o celular. Quando voltei para casa, coloquei uma máscara no nariz e joguei fora tudo o que havia estragado dentro do congelador e da geladeira. Meu cérebro a essa altura parecia um patê. Mesmo tendo coberto o nariz com uma máscara, ainda sinto o cheiro de podre que empesteou o espaço em momentos totalmente desconectados daquela situação.
Os meses têm ânimos diferentes e dezembro deve ser o que menos gosto. Dentre todos os motivos que tenho para não gostar desse mês, uma característica muito forte acentua meu desgosto: o ritmo acelerado dos últimos dias do calendário. As pessoas andando nas ruas de São Paulo como formigas atordoadas depois que um dedo de criança bagunça o rastro de cheiro que as ligam ao formigueiro. Tudo é elétrico nessa época e tudo parece demanda. É preciso amar mais o próximo, ir ao shopping, cozinhar bem, servir mesas fartas, sorrir, agradecer, fazer um balanço, disfarçar um pouco a tristeza, exagerar um pouco na alegria. Eu, por mim, preferiria ficar quietinha.
A Páscoa é um feriado mais triste, mas me comove mais. Não escapo de refletir sobre questões como o perdão, a renovação de ciclos em encenações infinitas de morte e a ressurreição, a imagem de treze amigos jantando juntos. Minhas referências vêm menos do curso de primeira comunhão na infância e muito mais dos anos acompanhando montagem da peça Jesus Cristo Superstar no colégio durante a adolescência. Considerando que a Páscoa cai sempre em semana de lua cheia, só consigo me associar àqueles versos em que Drummond diz “Mas essa Lua/Mas esse conhaque/Botam a gente comovido como o diabo.”
Em dezembro, encontrei meus amigos daquela época do teatro, e, involuntariamente, passamos uma noite bebendo vinho, comendo pão. Nos vimos dias antes de eu ficar sem eletricidade em casa. Em algum momento, um deles falou “Tá todo mundo mal” e precisei discordar. Em 2025, eu tinha feito um pacto comigo mesma de tentar escapar das armadilhas do cinismo (são inúmeras e, garanto, ardilosas). Achei que pontuar que não me sinto mal, mesmo reconhecendo todos os problemas que nossa geração enfrenta, o mundo de modo geral, o sistema em que estamos inseridos de forma específica, era um jeito de desviar do abismo niilista que nos olha de volta sempre que o encaramos. Sinto que se a gente afirma que todo mundo tá mal o tempo todo o espaço para que uns cuidem dos outros fica muito estreito. Alguém há de estar melhorzinho e segurar um pouco a bronca e, depois, receber um colo quando as coisas desandarem (ou um chuveiro com água quente, ou um convite para guardar as coisas de geladeira na casa de um amigo). Todo mundo tem o direito de se sentir mal, mas acho importante reforçar a importância da solidariedade e, de algum modo, da esperança.
Para 2026, além de continuar tentando ter um olhar menos desgraçante e desgraçado para o mundo, gostaria que a Síndrome de Protagonista fosse substituída pela Era da Falsa Modéstia. Comecei a imaginar um mundo - irreal e improvável - em que todos passariam a dizer que fazem as coisas de uma forma mais medíocre do que realmente fazem. Um mundo em que nenhuma vida parecesse muito extraordinária, composto apenas de um amontoado de gente tentando melhorar um pouquinho alguma coisinha em si. Não sei se seria uma ideia genial; é mais uma singela sugestão de alguém que sabe tão pouco de todo esse mistério que é estar vivo.
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▶ Aproveitei o recesso para ir ao Instituto Moreira Salles ver as duas exposições em cartaz: Gordon Parks - A América Sou Eu e Fotografia AGNÈS VARDA Cinema. Me senti agraciada pela chance de poder ver expostas fotografias de dois artistas de quem gosto muito e que eu sinto que ensinam com suas obras a ter um olhar generoso sobre seus objetos. As visitas de acordo com o site do IMS podem ser feita até dia 1/3 à do fotógrafo estadunidense e até 12/4 à da cineasta franco-belga. Há sessões de cinema relacionados aos dois, vale olhar a programação.
▶ Eu adoro dizer que as palavras significam coisas quando uma frase completamente sem sentido aparece na minha frente. Feito especialmente para pessoas que acham que palavras significam coisas o jogo Baba Is You tem rodado no meu computador nos últimos dias. É essencialmente um jogo de quebra-cabeça em que o jogador tem que mudar o que as coisas são a partir da básica estrutura sujeito + verbo + objeto. Me senti muito espertinha no primeiro mundo que fechei; agora não paro de olhar pra tela e me perguntar “sou burra?”. Recomendo.
▶ No recesso também li meu último livro do ano, Crônicas de Jerusalém do Guy Delisle. É uma história em quadrinhos sobre o ano em que o autor viveu na cidade, enquanto sua esposa trabalhava na organização Médicos Sem Fronteiras em Gaza. Enquanto lia determinadas passagens (especialmente aquelas em que palestinos não podem circular pelos territórios que um dia foram seus), lembrei do impacto que tive ao ir para a África do Sul aos 18 anos. Lá, conheci e conversei com pessoas que viveram durante o apartheid (em 2008 ainda uma lembrança recente), essa segregação espacial a partir de classificações que determinavam quem era mais ou menos cidadão dentro do país.



Me identifico com o desgosto em passar por Dezembro. As pessoas parecem que precisam dar conta de tudo que não fez o ano todo. Esse frenezi me atordoa .
Gostei muito do texto.