linhas simultâneas
Pra mim, a internet é importante e cada vez pior
A nossa concepção de tempo varia de acordo com um bocado de coisas: a cultura na qual nos inserimos, a religião que seguimos, nossos contextos sociais. Você pode imaginar que o tempo é uma linha reta rumo ao infinito, uma progressão que avança tal qual uma esteira automatizada no filme de Charlie Chaplin. Se sua principal atividade econômica é plantar e colher, talvez seu tempo seja um ciclo regido por fases da lua, condições climáticas, pela mudança inexorável das estações do ano. Mas se você vive dentro da internet, talvez seu cérebro comporte linhas do tempo diferentes simultâneas. Seu tempo é cheio de links que levam a outro lugar e depois de volta àquele primeiro, a histórias que se desenrolam entrecortadas por outras, narrativas fragmentadas, dicas de restaurantes novos na sua cidade intercaladas com cenas de violência extrema. Desinstalei o instagram do meu celular. Passei alguns dias no Rio de Janeiro, motivada primeiramente pela presença de Shakira em Copacabana e, concomitantemente, com a perspectiva de um final de semana numa cidade que adoro, com pessoas me conhecem há muitos anos (algumas, desde a adolescência). Quando voltei e olhei para o aplicativo no meu celular, foi como se um botão tivesse sido apertado dentro de mim e aquele ambiente que me interessava e me excitava (com suas cores vibrantes e ação constante) tivesse, de repente, ficado opaco. A verdade é que vinha desejando há algum tempo que esse desinteresse aparecesse e, vale dizer, ele ainda não é absoluto. Não desativei minha conta, só dificultei meu acesso, que tenho feito pelo navegador do computador poucas vezes por semana (ao invés de inúmeras vezes ao dia). O desejo era latente e explica por que desde o começo do ano venho trocando e-mails com amigos, sabendo de suas vidas em escritas lentas e espaçadas, contando minhas novidades aos poucos, sabendo deles conforme sentem vontade de contar. Acho que eu tinha medo de sair das redes sociais e me sentir sozinha, com menos amigos. Mas, sendo bem honesta, percebi que a amizade nas redes sociais é muito reativa; pontual. Pode ser que amizade seja mais processo e presença do que resposta e reação. Ainda não me sinto só. Outro ponto importante é que, ao contrário do que possam ter prometido por aí, desinstalar o aplicativo não me fez mais produtiva. É verdade que em algum momento nessas poucas semanas inventei de escrever um livro. Quando cheguei à página 54, percebi que não conseguiria terminar essa empreitada tão já, alcançada por um monte de demandas de trabalho. Apesar de ter chegado a umas 25 mil palavras, aceitei que será mais um projeto que farei devagar e de vez em quando, entre crises sobre ser uma escritora de domingos (tema para outro momento). O grande feito desses dias foi estar mais presente no meu tédio. Lembrei de olhar pro vazio. Dei-me de presente a chance de não saber muito, de responder numa conversa que não, não tenho a menor ideia de que meme é esse do qual você está falando. E também esqueci o dia do aniversário da minha melhor amiga. Como consequência imediata desse constrangimento, coletei às pressas as datas de aniversário de meus amigos e alimentei minha agenda (um outro aplicativo no celular) pra não correr o risco de a minha vida sair acontecendo e eu esquecer de mandar meu abraço no dia especial de alguém. Mas tudo isso faz parte de algo muito maior. Eu vivo uma situação dúbia com relação à internet. Das coisas mais importantes da minha vida, a maior parte foi forjada na rede mundial de computadores. Do acesso a uma infinitude de artefatos culturais compartilhados digitalmente à minha sociabilidade entre a adolescência e meus anos de jovem adulta (inclusive com as amigas que encontrei no Rio de Janeiro no começo do mês). Meu emprego, em última análise, também cabe nesse conjunto, já que há quase dez anos trabalho na área da comunicação digital. As coisas que pude comprar com os salários desse emprego, e todas as coisas valiosas e sem preço que vivi com amigos feitos em caixas de comentários de blogs, em comunidades, grupos, bate-papos. E, ao mesmo tempo, não escapo da estafa, da inveja, dos questionamentos sobre as escolhas que fiz na minha vida motivada por pressuposições ao observar a vida de pessoas que eu mal conheço. Porém, eu não sou a única que vivo essa relação nebulosa; a própria internet parece estar nesse sufoco consigo mesma. As pessoas passaram a confundir a internet com as redes sociais e acabaram dando ao algoritmo um super poder sobre seus próprios gostos e interesses. Poder não estar na internet, eu sustento há anos, é um dos maiores privilégios que uma pessoa pode ter. A maioria (provavelmente absoluta) de quem me lê não conta com esse privilégio. Confrontada com o pensamento “será que sou viciada em tela?”, só consegui responder pra mim mesma “e como não seria?”. Desde que comecei a exercer funções remuneradas, por volta dos dezesseis anos de idade, trabalho era sinônimo de ficar diante de um computador, geralmente conectado a uma linha telefônica e um provedor de internet. Não consigo saber se sou viciada em telas, se, desde muito nova, fui incentivada a olhar para uma e receber recompensas por isso. De qualquer forma, diminuir o espaço de redes sociais, de algoritmos e de olhadas furtivas para o celular, me gera conforto. A internet piorou muito nos últimos anos. Ainda não fui convencida de que a inteligência artificial vai roubar meu emprego (boa notícia) e, muito menos, salvar o mundo (má notícia). Os robôs não param de alucinar e seus aliados humanos de entrar em algo pior do que isso. Pratico esportes coletivos três vezes na semana e outro dia percebi que nesses dias eu brinco com pessoas com histórias muito diferentes da minha. Três vezes por semana, passo 1h30 com pessoas (mulheres, se quiserem especificidade) sobre as quais sei muito pouco, geralmente só seus primeiros nomes. Algo tão banal na infância e tão incomum na idade adulta. E, desconfio, cada vez mais incomum nas próprias infâncias transformadas por telas e acesso a redes. Trata-se do oposto mais evidente da vida diante de uma tela: correndo, pulando, jogando uma bola. E o oposto da lógica elementar do algoritmo: desafiando bolhas de iguais. Quando penso sobre o tempo, não sei bem qual é a forma que ele assume fisicamente em minha mente. Mas me debruço sobre a ideia de que há nele conjuntos de rupturas e continuidades e que são essas duas dinâmicas que me interessam. Por isso, não é nada estranho que a minha relação com algo tão próximo a mim se altere no tempo como uma ruptura e se mantenha na minha vida como algo fundamental em quem me tornei.
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▶ Uma exposição que me marcou profundamente foi aquela antológica de Maureen Bisilliat no prédio da Fiesp em 2010. As imagens me impactaram muito e, anos depois, quando fui convidada para dar aula de fotografia numa atividade extracurricular de uma escola pública em São Paulo, levei para os alunos algumas imagens que conheci naquela exposição. Xeretando na internet esses tempos encontrei o documentário Equivalências: Aprender/Vivendo que conta um pouco da trajetória dessa fotógrafa apaixonada pela literatura brasileira.
▶ Um domingo desses de sol, peguei minha canga, andei até o parque e passei a tarde lendo Por que olhar para os animais? do John Berger. Cercada de garças e cães, escutando maritacas ao longe, espantando formigas que me escalavam. Os textos são simples, pensamentos escritos quase com um teor confessional e ensaístico. É até engraçado, depois de um dia deitada na grama pensando em como a gente no fundo é bicho, pensar que olhar para uma tela possa gerar sentimento de inveja de outras vidas.
▶ O livro que comecei a escrever e parei por circunstâncias da vida parte dos relatos de viagens que tenho escrito e enviado para os assinantes pagos de sintética. Como eles têm uma proposta diferente do que costumo escrever aqui, escolhi esse caminho. Aproveito pra deixar aqui meu agradecimento a todos que têm viabilizado essa ideia (mesmo que eu não saiba muito bem ainda onde irá terminar essa rota) :)



Como sou de outra geração, posso dizer que sou saudosista da época que não existiam redes sociais.